Come[n]ta-Blog

“Don’t just do something, sit there” ………….. at ………………………. Descamisadoo@gmail.com

Christmas

Posted by Descamisado on December 21, 2006

  Por motivos completamente egoisticos nao tenho escrito nada neste espaco. Mas estamos chegados ao fim deste ano, as perspectives para o proximo parecem animadoras com a troca das montanhas e neve pela praia e mar .  

Aqui termina o meu Come(n)ta blog. Morreu como morrem todos os sonhos que nao se concretizam como os desejamos. Mas tal como o ano que passa, o velho vai dar lugar ao novo. Esperem para ver !!!  Mas entretanto:

 É Natal. Para quem ainda nao tenha dado por isso nesta quadra somos todos levados a saudar, desejar e presentear de forma mais ou menos sincera. No resto do ano nao temos tempo, nao queremos saber e muito menos nos importa, na nossa vida tao cheia e preenchida. Neste aliviar de consciencia que esta quadra nos traz é-nos dada a oportunidade última – pelo menos este ano, porque para o ano há mais – de fazermos  « as pazes » com o silêncio com que tratamos os nossos amigos e familiares. Não são apenas os outros, somos todos nós, mesmo os que dizem nao seguir essa prática, que o fazem.

Assim sendo e para não quebrar a tradicao quero desejar Boas Festas e um Feliz 2007.

 E que nos seja permitido pelo menos uma vez na vida seguir com sinceridade a felicidade de cada de nós como a nossa :  com amor e compaixao por cada momento  que partilhamos.Boas Festas

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Crossroads – A vida segue dentro dos momentos

Posted by Descamisado on September 28, 2006

Prologo.

Este é o caminho que não escolheste. Por cada decisão há um caminho que rejeitamos. Este é o caminho que nunca irás percorrer, o sorriso que nunca irás encarar, a mão que nunca irás tomar na tua, aninhada nos teus dedos esguios, entrelaçados a caminhar na direcção de um pôr-do-sol único porque irrepetível.

 

Este é o rol de juras de amor que nunca iremos desvendar, uma a uma, por cada momento inolvidável.

 

A vida continua a perseguir–me e eu a esconder-me dela.

 

Tenho saudades do tempo em que nada mais queria que correr brincando com o tempo que parecia àquela altura não ter fim. Saltar despreocupado o dia todo.

 

Tenho saudades da inocência no limite do crescimento.

 

Posso voltar ali, por favor? Alguém me deixa corrigir os erros do meu futuro? Posso antes fazer uma pausa e deixar-me ficar no meu canto? Só quero um momento, mesmo que eterno, de paz. Um só único em que possa fazer as pazes comigo. Em que possa voltar a acreditar que sou eu e não as minhas fantasias que comandam a minha vidaNem que seja no fim do mundo.

 

“Cuidado com o que desejas, podes conseguir-lo.”

 

Estou prestes a partir de novo, mais uma vez em busca eterna do que não encontro dentro de mim.

 

O medo que não tenho e que me acorrenta, terei alguma vez existido a não ser na cabeça de quem me pensa conhecer?

 

Momento I – Milagre de vida.

 

Era apenas um tempo encantado. Todo o tempo dominado pela sua aparição e assim começara, um fogo fátuo que correu, etéreo, e iluminou o salto abismal para a vida.

 

Num momento ganhara a consciência e viera ao mundo a suster a respiração até que o sangue parasse de fluir. Cresceu como um rio que inundava tudo com a sua presença, procurando o seu norte mas apenas encontrando encruzilhadas. Percorria mentalmente as ondas de solidão mas não se reconhecia nem queria ser reconhecido. Nunca fora capaz de atrair a sorte. Compensava correndo atrás de desilusões. Sorria cada vez que o fado se repetia, escutando de olhos semicerrados, trauteando estrofes repetidas. Sem perceber até onde podia ir mergulhado naquele vazio, vezes sem conta perguntas e respostas.

 

Fechou os olhos e voltou a mergulhar, ao longe os sinos

 

 

 

Momento II – By the Book

 

O badalo repicou no silêncio da manhã despertando o dia a sangue frio, o sol a agradecer o novo começo repetido.

 

O despedaçar do silêncio trouxe-o de volta.

 

As noites são sempre longas quando se viaja. Sono estranho em cama estranha, a confusão instalada nos sentidos e a boca seca que não deixa respirar. Mas quando a estrada da vida é a nossa casa, já nada nos impede de dormir.

 

Releu pela milésima vez a pequena nota escrita num guardanapo de papel, amarelecido pelo tempo:

 

“Quando nos apaixonamos é sempre uma loucura temporária. Manifesta-se como um furacão e então molda-nos. E quando nos condiciona temos que tomar uma decisão: Temos que compreender se as nossas raízes se tornaram tão juntas que nos seja inconcebível que algum de nós parta. Porque na realidade é isto que amar significa. Não é o cortar da respiração quando nos olhamos; Não é a excitação de quando estamos juntos; Não é o desejo de acasalar a cada segundo do dia; Não é ficar acordado pela noite dentro imaginando que nos beijam cada ínfima parte do nosso corpo. Isso é apenas “estar apaixonado”. O que cada um de nós pode perfeitamente convencer-se que está.

Mas amor mesmo é o que fica quando a paixão se desvanece nas suas chamas.”

 

Já não se lembrava quem lho escrevera, mas o que lhe importava era que aquilo nunca faria sentido para si. Sentou-se na borda da cama ainda atordoado. Passou a mão lentamente por entre os cabelos ralos e apoiou a cabeça pensativamente. As imagens corriam diante dos olhos, sucessão louca dos momentos passados. Tentou afasta-las mas teimavam.

 

– Preciso de um café!

 

Tentou apoiar-se nas pernas bambas mas deixou-se cair de novo na cama, zonzo pelo esforço.

 

“Este é um rio de águas estagnadas. Quero mandar uma mensagem mas a garrafa não avança”

 

Dormir num campanário pode não ser o melhor para os nervos. Mas para ele era indiferente. Não sentia dor. Não tinha sentimentos. Defeito genético, segundo a comunidade médica. Uma degeneração impedira o desenvolvimento do sistema nervoso e portanto tornara-se incapaz de receber estímulos exteriores. Onde a natureza lhe tirara a natureza lhe dera. O mesmo “defeito” fez que crescesse sem traumas e uma vida hiper-protegida permitira-lhe manter todos os traços de deus grego imersos num sorriso de cara de bebé. Mas ao contrário do que se possa pensar, sempre fora um estigma. Não conseguia saber o que era amar, entre outras coisas. Por isso se mantinha na estrada, viajando, nunca ficando demasiado tempo no mesmo lugar. Local novo onde chegava procurava de imediato a igreja local. E dormia onde ninguém o procuraria: no campanário, na sala do sino.

 

Talvez por isso não dera muita atenção ao sinal topográfico quando acelerara a sua cavallino rompante : “Chegou ao Lugar do Fim-do-Mundo. População 1062 viventes”

 

Já fizera um pouco de tudo e usando as suas características especiais fora piloto de ensaios. A ausência de sentimentos permitia-lhe ultrapassar todas as barreiras e ainda assim sair vivo. Em sinal de reconhecimento pela sua audácia e entrega fora agraciado com o único modelo de duas rodas a carregar a ensignia de Maranello, que agora manejava com destreza em direcção ao centro da vila. Na senda do próximo campanário e do próximo local de descanso antes da azáfama.

 

Estranhou não ver movimento nas ruas. Afinal era domingo, dia de confissão e naquelas pequenas vilas havia sempre muito que confessionar. Largou a mota à distancia e encaminhou-se para a sacristia. As portas encontravam-se todas ferradas e os sinais de abandono do jardim e do pequeno cemitério não eram um bom augúrio. Olhou através dum vitral partido e confirmou que esta casa do senhor há muito tempo que não tinha locatário, tanto tempo quanto o pó acumulado. Melhor assim, não teria ninguém a incomodar a meio da noite.

Quando finalmente consegui entrar ficou parado a olhar o enorme buraco bem no centro da sala do campanário. No meio desse buraco iluminado pelos raios do sol o imenso sino que em tempos teria feito as delicias da paróquia restava, quedo e mudo, enterrado no solo. Aproximou-se e passou-lhe as mãos ao de leve levantado uma nuvem de poeira que o fez espirrar mecanicamente. Sacudindo o pó dirigiu-se para a escada que em tempos dera acesso ao campanário. Não oferecia segurança mas ainda assim não se demoveu de a subir. Procurou o melhor sitio que lhe permitisse pousar a bagagem e deitou-se observando o horizonte através do buraco na estrutura que antes suportara o sino. Mais tarde iria tentar perceber o que se passara ali. Curiosidade parecia ser o único sentido que ainda podia acarinhar.

 

Momento III – Manhã à descoberta.

 

O cheiro a ovos estrelados e a café recente trouxe para junto dele uma quantidade inominável de pombos, provavelmente os verdadeiros donos daquele pardieiro. Com displicência foi atirando migalhas do bolo de arroz enquanto sorvia em pequenos goles. O arrulhar incessante aborreceu-o e com destreza levantou-se arrufando tudo pela frente.

Já cá fora verificou se a mota estava bem segura e dirigiu-se a pé na ideia de encontrar os escritórios do jornal da vila, o que não foi difícil dado o imenso letreiro “Noticias do Fim-do-Mundo” que encimava um burlesco edifico bem ao lado da barbearia. Registou para mais tarde lá voltar, a seguir ao jornal o barbeiro é o melhor sitio para se saber as novidades e as antiguidades.

O ranger da porta de vai-e-vem fez-lo sorrir e à primeira vista pareceu-lhe ter recuado um século no tempo. Um mirar em redor confirmou que o tempo tinha na certa parado por ali. Um ligeiro tossir chamou-lhe a atenção. Por detrás de um pequeno postigo dois grandes aros de tartaruga encavalitavam um par de lunetas por diante de uns olhos inquisitivos.

– Posso ser útil?

A voz enrouquecida a culminar uma cara de fuinha e um carrapito de mestre-escola não davam sinal de simpatia.

– Talvez… precisava de consultar as vossas edições antigas…

O abanar negativo do carrapito cortou-lhe o discurso.

– Se não tem cartão de leitor não será possível.

– Hum. Não sou de cá, sabe?!

– Sei muito bem. Eu conheço todos os 1062 habitantes do Lugar do Fim-do-Mundo, freguesia de Nenhures, Concelho de Lugar-Algum.

Olhou em redor pensando onde diabo teria errado no cruzamento para ter vindo parar a este ponto que nem vinha no mapa, e enquanto enchia o peito de paciência retorquiu

– Pois sim. E o que preciso de fazer para ter esse cartão de leitor?

– Documento de identidade válido e preencher este impresso, senhor…?

– Gabriel. Ângelo Gabriel.

– Senhor Gabriel, que edição pretender ver ?– perguntou a curiosidade olhando por cima dos óculos, sorrindo enquanto repetia o nome.

– Mais ou menos da altura do acidente do sino da igreja.

O endurecer das feições da funcionária deu-lhe a entender que acertara na desconfiança.

– E qual é o seu interesse nessa desgraça?

– Mera confirmação de factos importantes para a minha história.

– História? Qual história?

– A que escrevo a partir dos lugares que visito.

– E a quem pode interessar a historia do lugar do Fim-do-Mundo?

– A mim, para começar?!

– Pois sim. Aqui tem as luvas para a consulta. Espere um momento enquanto vou buscar a chave da cave.

Se tivesse alguma espécie de sentimentos este seria o momento do arrepio na espinha. Só a ideia de ir para a cave com aquela figura poderia ter tirar o sono a qualquer outra pessoa, a ele deu-lhe vontade de sorrir.

O carrapito bamboleava na sua frente, enorme na luz difusa do corredor da cave.

– Pois bem, procuramos 1962, Junho. Um mês quente segundo dizem. O que explica o apodrecimento das madeiras que originaram o incidente.

– Incidente?

– Ora aqui está, 62, Março, Junho e … Julho. Por favor não tire nada da ordem e toque esta campainha quando pretender sair. Pode usar essa mesa.

– Obrigada.

Sentou-se. As luvas não davam muito jeito e descartou-as. Folheou as gordas e provou que realmente aquele lugar não existia. Até que deu com o que procurava. A toda a pagina enquadrando uma foto do acidente leu : “Tragédia abate-se sobre Igreja Mestra”. “Pároco Benedito soterrado por sino em queda”. Foi impossível suster a gargalhada. Leu o resto da noticia apenas por curiosidade. Como as más línguas falavam em castigo dos céus, como o pároco mantinha uma vida sofrega e nada de acordo com os cânones da santa madre igreja e como foi um alivio que mais ninguém tivesse ficado ferido, como se decidira fechar a igreja por falta de quorum de fieis. Aparentemente o pároco estava a tocar vésperas quando a estrutura dera de si, alguns diziam motivado pela secura daquele verão enorme e um batalhão de térmitas bíblicas. Quando se preparava para fechar o pasquim notou um pé de pagina onde se titulava ” Paroquiana dá há luz em plena Igreja “. Aparentemente chocada pela tragédia a mulher dera à luz prematuramente uma criança do sexo feminino que nascera cega e falecera no acto. Estranhas coincidências, começava a gostar daquele lugar onde a justiça divina parecia aguçada. Tocou a campainha e refastelou-se na cadeira aguardando.

 

Momento IV – O lugar do Fim-do-Mundo

 

Anoitece rapidamente por estes lados e assim deu por si a abrir a boca sonolenta. Ainda pensou em dar um salto à cantina mais próxima mas preferiu descansar os ossos moidos e deixar para amanhã o que podia ter feito hoje. Pois sim. Quando começou a subir de novo a escada para o campanário acidentado algo lhe pareceu diferente mas não deu saída a essa intuição e continuou a subir. Quando se preparava para deitar de novo no saco-cama reparou que a luz da lua reflectia algo que antes não estivera ali. Caminhou calmamente para a beira do buraco abismal e reparou então na figura que a luz transformava em sombra debruçada sobre o beiral.

– Não vai saltar, pois não?

Sem dar sinais de pressa ou sobressalto a figura respondeu-lhe calmamente

– Nem saberia para onde, esta vila não aguentava mais tragédias com sinos e igrejas.

Sorriu e sentou-se ao lado da figura, olhando-a de soslaio.

– Como me encontrou aqui?

– Não encontrei. Você é que me encontrou. – A minha tia disse-me que andou a vasculhar os jornais antigos. Interesse mórbido?

– Sua tia? Hum, negativo, apenas curiosidade para saber o que pode transformar uma igreja em ruínas.

– Só isso?

– De momento, sim. Mas se calhar pode ajudar-me a entender melhor.

– Não precisa de entender nada, senhor Gabriel. Não há nada para entender. O pároco era um debochado e deus castigou-o.

– Não me trate por senhor, o senhor está no céu e eu sou um Ângelo terreno e por aqui quero continuar singelo. Porquê debochado?

– Porque era. Sim, eu sei que não se deve falar assim de um pai, mas não tive tempo para aprender a compreende-lo. Homens-padres e padres-homens…

Mais de perto reconheceu os sinais. A rapariga podia ser cega mas a beleza era estonteante sobre aquela luminescência lunar

– Lamento.

– Porquê? Nem me conhece, porque desperdiça os seus lamentos comigo?

– Afinal como me encontrou aqui?

– Já lhe disse, foi você que me encontrou. Eu venho sempre aqui quando posso. Gosto de sentir o vento na cara.

– E não tem medo?

– Não, se tivesse voava

– Ah?

– Nunca ouviu dizer que o medo dá asas?

Sorriu de novo. Começava a gostar daquele sentido de humor caustico.

 

Momento V – Figuras

 

 

– Estamos num sonho? – perguntou ela, enchendo a face com um sorriso harmonioso, quebrando o silêncio doce que se instalara.

– Absolutamente!

– E tu és o homem do meu sonho?

– Em cada segundo que passa temos a oportunidade de mudar a nossa vida…

– Quer dizer que tu podes ser o homem do meu sonho se eu assim o desejar?

– E se ainda assim não for possível neste segundo, podemos sempre encontramos-nos noutra vida, como gatos, quando voltarmos aqui.

– Como gatos?

– A liberdade dos felinos…

– Não faz sentido mas gosto da perspectiva.

– Hum…

– Então vemos-nos na próxima vida quando formos ambos gatos – disse ela enquanto ensaiava levantar-se prontamente.

Com um piscar de olhos ele sentiu um brilho metálico trespassar-lhe o cérebro. O que estava a acontecer, porque é que aquelas palavras não lhe pareciam estranhas?

– Espera… tens que ir agora?

– A minha tia fica preocupada se eu chegar tarde.

– Mas já é tarde, que diferença faz? Posso acompanhar-te, ao menos.

– Não desta vez. Talvez da próxima?!

– Como queiras. Diz-me o teu nome para poder sonhar contigo.

– Madalena.

– Hum.

– Cuidado com as quedas, Ângelo.

– Tu também.

– Não te preocupes. Eu já sou um gato, sabes, vejo no escuro.

Não foi capaz de impedir-se de esboçar novo sorriso. Decididamente parecia conhece-la desde sempre e tudo o que ela fazia decorria em cenas de dejá vu flagrante. Ia ser uma noite longa – pensou. Quando deu conta, ela tinha desaparecido, uma sombra nas sombras, sem um som discordante com o adiantado da hora. Teria sonhado? Encolhendo os ombros gatinhou sorrindo para dentro do saco-cama adormecendo de imediato.

 

Momento VI – Factos

 

O arrulhar embalou-o pela manhã do novo dia adentro e ficou a dourar a alma ao sol que penetrava no seu descanso. Com as mãos atrás da nuca a servir de almofada deixou-se levar pelos pensamentos. De repente imaginou que era uma boa altura de fazer mais uma entrada no seu diário de registo. Tinha este diário desde sempre. Instigado pelos médicos que acompanharam o seu crescimento protegido começou a registar tudo o que lhe vinha à ideia e aos olhos na sua tenra idade – comparada com a idade do universo, mesmo muito tenra. Era a única coisa que mantivera como hábito inalterável a fazer de fio condutor do passado ao futuro. Tudo o resto fazia questão de actualizar de tempos a tempos. Hábitos, profissão, vestuário, dados biográficos, tudo. Para cada encruzilhada um novo homem se predestinava. Já nem sabia qual a sua origem, tal a sua necessidade de não criar raízes. Apenas um diário de registo lhe podia garantir que tivera uma vida antes desta.

 

Pegou no seu E-Book, sinal dos tempos modernos – nele estavam contidos milhares de dias de escrita e aprendizagem desemocionada – e introduziu o código de acesso. Não tinha por habito voltar atrás e reler o que escrevera mas desta vez sentiu uma urgência em o fazer. Colocou o nano-sensor no lóbulo da orelha e deixou que os neuronais se conectassem. Com um simples comando mental activou o leitor de registos e as palavras entraram directamente no seu córtex, claras como a sua própria voz que as ditara:

 

” Letal.

 

Pensar que se pode emendar defeitos pode ser letal, mortífero para a alma. Quero ser imperfeito, quero continuar a sentir que sou humano e erro sistematicamente. Quero ter o desespero de seguir caminhos inseguros e mesmo assim ter força suficiente para erguer a alma após a queda, sair do abismo de mim e rendilhar o destino com a desfaçatez da minha vontade. Quero continuar eternamente a seguir as minhas vontades, desfazer o destino de encontro à parede da minha determinação, pedir que me evitem para não se contaminarem com o vírus da imponderabilidade, da inconstância, da incerteza. Porque se há coisas que me aborrecem de morte são as rotinas da vida quotidiana. Dia em que não possa seguir o caminho oposto para chegar ao mesmo lugar não serve para me fazer maior que a vida e o mundo. “

 

Lembrava agora porque sentira algo de comum com a rapariga do beiral. Sentira que naquele momento ela poderia ser letal para os seus desígnios. Porque embora não nutrisse qualquer sentimento visível não pudera deixar de estranhar como ela se introduzira nos seu subconsciente. Como uma chave de segredo que acabava de abrir um baú de emoções que não tinha. Como se fosse o pedaço que lhe faltava para que pudesse fazer sentido.

 

Momento VII “Facts and figures come together”

 

Ainda assim o despedaço não lhe tirou o sono. Voltou a deitar-se depois de passar horas e horas a remexer nas memórias e a ditar, ditar, dia já adiantado. E depois adormeceu sonhando. Ou recordou tempos que já não sabia se passados se futuros. Sobressaltado pela realidade do sonho não consegui voltara a pegar no sono nas altas horas da nova madrugada. Desceu ao centro noite e da vila passeando pela escuridão, aqui e ali acompanhado pelos destemperados da vida, gatos e cães que insistiam em travar conhecimento com este estranho tão familiar percorrendo com ele cada pedaço do seu rodar desatinado, cada um tomando o lugar do anterior, como estafetas, pelos caminhos seus conhecidos. E ele lá se deixou guiar até arribar a um promontório, a Lua iluminando e fazendo perceptível cada contorno como se dia fosse. Foi seguindo o caminho traçado na rocha até desaguar numa praia contida, de águas prata e areias branqueadas que o acolheram no seu istmo mais proeminente. Puxou de um espaço e deixou o corpo marear frente ao ondular pacificamente ritmado das ondas. E então adormeceu rapidamente como se tivesse voltado ao berço, polegar na boca, defeito de infância que deveras tentava esconder em vão enroscando o corpo à volta do delito, voltado para dentro do mar.

 

“Never lie, steal, cheat or drink

 

But if you must lie

Lie in the arms of the one you love

 

If you must steal

Steal away from bad company

 

If you must cheat

Cheat death

 

And if you must drink

Drink in the moments that take your breath away “

 

Com o nascer do Sol corpuscular irradiando no horizonte a boca seca fez-lhe recordar por quanto tempo seguira as palavras do seu mentor, à falta de pais presentes. Por quanto tempo lhe fora impossível perceber naturalmente o que era mentir e enganar para ser sincero, roubar por necessidade ou beber para ultrapassar o torvelinho que o mantinha sóbrio demais para aproveitar a vida. Este momento poderia ser um dos que lhe podia ter tirado o fôlego de tão belo se houvesse nele um grama de capacidade para perceber e sentir essa emoção. De outro modo era apenas mais um, a boca ainda seca mas sem razão nem vazão.

 

– Como é um nascer-do-sol? – Perguntou Madalena, empurrando um termo de encontro a ele.

Sem se voltar, Ângelo admirou a subtileza com que ela tinha chegado sem se fazer notar. Imaginou que estaria atrás de si, adivinhando o traçado suave do seu rosto de alvorada e estendeu a mão para pegar no que lhe era oferecido, mesmo sem se voltar.

– Como uma explosão de luz, como o rasgar de uma tela escura onde se deixa cair uma miríade de cores sem conta.

– Isso parece mais a descrição de um arco-íris.

– Como sabes?

– Disseram-me… Não tens frio? Trouxe uma manta – foi dizendo enquanto puxava de uma manta de tecido fofo e quente que lhe atirou por sobre a cabeça.

– Hum – resfolegou, enquanto sorvia e tentava ajeitar a colecção de retalhos coloridos que ela lhe enfronhara – Foste tu que fizeste este excelente café? E esta manta, obra tua?

– A minha tia diz que tenho “vista” para estas coisas.

– E para que mais tens “vista”? – Perguntou olhando por cima do ombro, apalpando a macieza retalhada.

– Para desconhecidos com passados turvos e futuros indistintos que desamparam, perdidos, no lugar do Fim-do-Mundo.

– Sim? E tens avistado muitos, ultimamente? – retorquiu, surpreendido ao constatar que nunca a tinha visto de dia e agora iluminada pelo amanhecer, de face imóvel e suave olhar parado, parecia exactamente um anjo endeusado como aqueles que ele ajudara a restaurar na Capela Cistina, uma emulação real de um sonho de mestre.

– Bem, para ser sincera tu és o primeiro e único. – respondeu com um sorriso que o presenteava, corando pela audácia da resposta. E ele, entre dois sois nascentes sentiu-se iluminado e engasgou-se com o café quente. Tossindo, foi assaltado por uma mão suave mas forte que o desengasgava à força, batendo certeira nas suas costas em vias de recuperar.

 

E assim se deixaram ficar, ela aninhada no desconhecido enroscado e ele quase a suster a respiração para não quebrar o encantamento, enquanto lhe descrevia o que se passava à volta, como se fosse a primeira vez que ela ali estivesse. Nunca seria a realidade dela mas ela começava a adorar as telas de vida que ele pintava à sua volta. Para desconhecido estava a tornar-se demasiado intimo, nem ela sabia bem como pois sempre mantivera distancia do mundo. Para ele, memoria assaltada por um beijo salgado de uma onda mais afoita, a lembrança que lhe ocorreu de ocaso e nascituro solar:

 

“É interessante o que um por-do-sol nos pode fazer, por-nos a pensar na singularidade da vida. A questão é que se vai em busca mais na nossa nostalgia do que na nossa racionalidade. Compreende-se, mas no fundo somos nós que determinamos qual o caminho. Porque certamente não importa passado ou futuro se formos capazes de viver no presente [se bem que existam pessoas que insistam em viver nas memorias passadas e ou que se projectam em futuros coloridos]. E mais importante ainda, não interessa de todo o que imaginamos sobre o que poderia ter sido se tivéssemos feito isto ou aquilo diferente porque se o tivéssemos que fazer então tínhamos feito e agora estaríamos a regurgitar sobre outra realidade que não esta. A crueza desta vida está no sofisma de que tudo o que tem um inicio tem um fim. E a resposta não está em tentarmos evitar esta verdade insofismável mas no que podemos fazer para protelar o mais possível o tal fim previsto. E interessa saber que por cada inicio com fim (in)previsto se dá origem a outros inícios, e que quando algo acaba, finda, termina, necessariamente algo de novo começa, se inicia. E aí a marca da natureza humana prevalece : a sua incapacidade para lidar com aquilo que considera “perda”, perder algo que julga possuir. Mas o tempo nestas questões é linear não tenhamos dúvidas disso e nesse momento devemos colocar o seu no seu devido lugar. E porquê? Porque invariavelmente quando nos detemos a pensar nas vidas estamos a deixar de as viver. Quando nos debruçamos preocupados sobre assuntos passados e encerrados [ou que o deveriam ser ou estar] esquecemos-nos de apreciar o maravilhoso por-do-sol que se nos apresenta em dádiva. O fim do dia. Que dá inicio à noite, com Lua, estrelas e mil maravilhas que podemos viver a cada momento presente. E sonhar. Porque segundo consta, o Homem é a única espécie que pode dar a si próprio sonhos. Sem que tenham que vir a ser necessariamente pesadelos. O que só depende de nós, claro.”

 

E assim, entre mil pensamentos dispersos e palavras indistintas, sussurradas, se deixaram ficar num abraço de sentir as ondas que os embalavam em sonhos estivais, outro dia passado na paz do Fim-do-Mundo. Nem fome nem sede nem desejo outro que não fosse estar ali, se houvesse desejo que o comandasse, que o invadisse algum dia, predestinado a não sentir-se a não ser racionalmente.

 

Momento VIII – “The Final Countdown”

 

Ali, naquela lugar junto ao mar, numa terra sem localização, ele mesmo sem localização neste plano divino, a imagem de Madalena permanecia vagueando nos seus pensamentos. Não entendia mas também não estranhava. Já em outros momentos sentira o desfazamento da sua realidade, a teia do tempo rasgada pelo exacerbado que a sua vida estendera ao ponto surrealista. E dela nem sinais., esvaída na noite e no seu sono, esfumada a sua presença da mesmo forma como chegara. Não entendia porque não a podia sentimentalizar, emocionar.

 

“Parting is such sweet sorrow that I shall say good night till it be tomorrow”

 

Romeu e Julieta – último acto. Reconheceu as palavras escritas, talvez por mão delicada, quais arabescos que na areia o mar ameaçava crescendo sobre si.

 

Ao reentrar na vila vindo do seu refugio nocturno sentiu que era o momento ideal. A manhã avançava nos seus compassos e a barba de três dias começava a dar-lhe algum incomodo, para não falar do aspecto mal dormido que começava a despontar no seu descrédito. E a barbearia mesmo ali à mão de desfazer deu-lhe a força que precisava para deslindar o motivo de tudo. E talvez saber algo mais sobre Madalena, por exemplo onde a poderia encontrar por sua vontade, a de um Ângelo em queda na vida.

 

Enquanto deambulava calmamente na direcção da barbearia avistou um figura mignone que avançava, passo certeiro e resoluto. O carrapito, hoje mais elaborado e o fato domingueiro deram sinal de quem chegava. Mas o rosto de poucos amigos não dava augúrio de boas vindas.

– Bom dia – cumprimentou Ângelo como seu mais belo e amável sorriso, arma mortal.

Apanhada de surpresa nos seus pensamentos a velha senhora retorquiu de imediato, pronta e mal amada

– Seria de facto não fosse esta vila cada vez mais permitir a indolência e a vagabundagem.

– Então, então, minha cara senhora, não esqueça que sou um pobre viajante, de passagem.

– E os ratos que invadem os lugares públicos e profanam as igrejas como se fossem sua casa.

– Não mate o mensageiro, por favor – continuou, sorrindo insistentemente.

– E se é um viajante o que espera para continuar a viajar?

– Isso será quando tiver todas as estória que esta vila me promete. Por falar nisso pode dizer-me onde encontro a sua sobrinha. Gostava de…

– O senhor não tem vergonha? Respeite-me, por favor, não me tente. Tenho idade para ser sua mãe…

– Mas…

– Nem mas nem meio mas. Não sei o que pretende mas por favor deixe a minha sobrinha e a sua desgraça em paz. Proíbo-o sequer de mencionar o que quer que seja sobre o meu anjo – vociferou em raiva, quase assaltando o atónito Ângelo, apanhado de surpresa por aquela reacção intempestiva.

– Como queira – respondeu ainda sorrindo, abrindo alas para deixar passar a apoplexica senhora que destilava agora rancor por todos os poros.

– Vou dar parte de si às autoridades. Não se brinca com coisas sérias. Passe muito bem!

– Irra, que vai possessa – pensou em voz alta enquanto retomava o seu caminho, olhando desconfiado por cima do ombro não fosse a dita senhora voltar à carga sobre si.

 

O estabelecimento já vira melhores dias – “Barbearia Albano aberta todo o ano” – a julgar pelo descoroar da pintura, pelos móveis seculares, a cadeira gingona que se moveu rangendo para o acolher e o imenso espelho envelhecido que reflectiu a figura anafada e simpaticamente prosaica do Albano, o dito cujo.

– Ora seja muito bem vindo à barbearia do Albano, senhor… Barba ou cabelo?

– Barba… e apare o bigode, por gentileza.

– Por sua vontade. E então o que trás pela nossa bela vila?

– A vida.

– Ai sim?

– E as estória das vidas. Para um autor as estórias são o alimento da alma e do dia a dia.

– Temos autor, então? Pois eu não o saberia dizer, esse alimento de alma de que fala, mas se são estórias que procura então veio ao lugar certo. No lugar do Fim-do-Mundo todas as histórias se cruzam e todas aqui se findam.

 

Estranhou o entoar desta cantilena, e de novo mirou a figura do barbeiro que lhe pareceu mais Fausto que de Sevilha.

– Ora ainda bem que nos entendemos. Conhece toda a gente desta vila?

– Claro. A todos dei tesouradas e a alguns escanhoadelas de nubentes. Porque nesta terra quem não passa pelo Albano… e depois sou também o boticário de serviço, entende.

 

Reconheceu agora o imenso balcão e as prateleiras que nas suas costas alinhavam mil e um unguentos, dignos e secretos, tal e qual.

– Já vi que sim…– deixou escapar Ângelo, enquanto fechava os olhos e se deixava embalar pelo “ric-ric” da navalha de ouro decorada por magnificas filigranas de rendilhado artesão.

– Bela instrumento essa navalha que aí tem – ciciou ainda enfarpelado pelo agrado das mãos de mestre à volta do rosto.

– Reconhecimento por uma vida de trabalho atrás da cadeira e do balcão. E por alguns ossos postos no lugar – emendou com um grasnar que soou sarcástico – a comunidade agradecida, sabe, oitenta e sete anos de cão a servir de almofada aos desatinos da publica virtude e dos vícios privados. Porque à falta de confessionário onde pensa que toda a gente vem dar contas à vida?

– Anos de cão?

– Sabe como dizem que a cada ano de vida correspondem sete de cão. Pois é como lhe digo, oitenta e sete deles…

– Está muito bem conservado para a idade…

– Enquanto não me faltarem os dentes para rilhar o ossobuco e estômago para a pinga

A gargalhada simultânea que confessava o entendimento mutuo foi interrompida pelo sino minúsculo que encimava a porta de entrada e que anunciava a chegada de mais um cliente.

– Xerife Moisés?! O que o trás por cá, ainda ontem levou serviço completo. Não voltou para mais pois não. O pouco cabelo que resta tem que voltar a crescer, sabe.

– Mestre Albano, não vim por mim ou por si, mas por esse cavalheiro que aí tem sentado.

– Por mim? – Estranhou Ângelo em voz alta, sorriso ao canto da boca escanhoada de pronto – E em que posso ser útil à autoridade?

– Acabei de receber uma queixa sobre o seu comportamento incivilizado.

– Comportamento incivilizado?

– Meu caro senhor, esta pode ser apenas uma vila sem nome digno de mapa, mas as pessoas que aqui vivem merecem o respeito e o direito à sua privacidade. Não sei qual a sua intenção mas o facto de andar a remexer no passado e na vida as pessoas não é bem visto por aqui.

– Não era minha intenção…

– E quais são as suas intenções? Pelo que sei está de passagem. Porque não vai já à sua vida e deixa as coisas como estão?

– Porque, meu caro xerife, como cidadão do mundo e desde que não esteja a cometer nenhum crime, julgo ter direito…

– Nesta vila quem estabelece os direitos é a autoridade, eu. Fica avisado, tem 48 horas para continuar a sua viagem. Se não cumprir com este aviso, teremos que recorrer a outros meios para o fazer entender que não é bem vindo ao lugar do Fim-do-Mundo se for para anda a invadir e remexer no passado das pessoas de bem.

– Mas afinal de que crime sou acusado? E por quem?

– Quer que lhe diga? Invasão de propriedade privada, tanto na igreja como na praia privada onde permaneceu ontem. A D.Purcina, a proprietária do jornal da vila, bem como dona dos terrenos da igreja e da praia não quer que se aproxime dela, entendeu?!

– Sim, mas…

– Não sei o que lhe passou pela cabeça de lhe ir falar da sobrinha…

– Mas apenas lhe perguntei onde a poderia encontrar.

– Agora está a tentar ser engraçado comigo?

– Como assim?

– Vai-me dizer que nessas investigações todas que faz não descobriu onde Madalena descansa na paz eterna?

– Descansa? Paz eterna? De que diabo fala?

– Tento nas palavras e cuidado a quem evoca.

– …

– Madalena, a sobrinha da D.Porcina faleceu aos 19 anos, não se sabe ainda hoje se acidentada ou por suicídio. O corpo foi encontrado afogado naquela praia onde pernoitou e está enterrado no cemitério da Igreja. Não me diga que não sabia?

– Eu…

– Bem, fica avisado, fique longe para não criar mais desafios, está bem. Passem um muito bom dia, meus senhores.

– Até já, xerife – despediu-se o barbeiro retomando o seu trabalho – Que se passa, amigo? Sente-se bem, está branco como a cal da parede.

– Eu não sabia.

– Velha estória, sabe, como aquelas que você diz que procura.

– Você sabe da estória. Ajude-me a entender.

– Porquê? Que interesse tem você?

– Sabe, pode achar que estou louco, mas a Madalena tem estado comigo neste últimos dias

– Hum, então também a tem visto?

– Também?

– Sim, contam-se por aí à boca cheia que o fantasma não descansa e tenta compensar todo o mal que lhe fizeram…

– O que lhe fizeram? Apenas sei como foi o seu nascimento, como era invisual desde esse momento, como perdeu a mãe e que o pai era o pároco que morreu no acidente do sino.

– Bem, sabe o essencial. O que não sabe é esta vila nunca perdoou essa estória e Madalena sofria muito, era uma pessoa muito sensível. Quando tentou salvar a honra dos seus pais, do seu amor puro mas fora dos cânones, mesmo contra a vontade da tia, encontrou um poço de ódio à sua volta e afogou-se na magoa da sua tenra idade. Não sabe você como as pessoas podem ser más no que diz respeito a julgarem os outros e Madalena não consegui viver com isso.

– Entendo, oh como entendo.

– Ora aí está, parece um novo homem. Serviço completo, que tal um pouco de cheirinho para terminar?

– Está bem assim. Mestre Albano, aqui tem o seu pago.

– Ah, não posso aceitar, isto é mais do que o ajuste pelo trabalho feito.

– Por favor aceite. Estou de partida e gostaria de o compensar pelo seu trabalho e gentileza.

– Vai então abandonar a sua estória?

– Por respeito, não por medo, entende?

– Pois sim, seja qual for a razão será mais um que vai abandonar Madalena. Pobre anjo…

– Adeus Mestre.

– Adeus moço. Mas olhe que a estória não acaba aqui…

Estas últimas palavras ficaram a bailar, penduradas na sua curiosidade. Tinha que voltar a encontrar Madalena, fantasma ou não. Tinha que tirar esta história a limpo. Pegou na mota e com um movimento só pôs-se em movimento. Voltaria mais tarde para recolher as suas coisas. De momento precisava de pensar e de resolver algumas coisas o que só poderia fazer na cidade mais próxima, precisava de um computador potente para efectuar algumas pesquisas. Voltaria, mas de precisava de tempo, sobretudo para tentar encontrar alguma realidade em tudo. As palavras do barbeiro não saíam do pensamento. Foi talvez por isso que não sentiu o aproximar do cruzamento nem tomou as devidas precauções. Foi por isso que a abrir potente com a mota como vinha lhe foi impossível evitar o acidente com o camião de madeiras que cruzava o seu caminho quando chegou ao fatídico cruzamento.

 

No hospital mais próximo para onde foi transportado detectaram através da sua ficha médica que o tipo sanguíneo raro podia impedir a recuperação do coma. O alerta lançado via meios de comunicação não produziu efeito. Ficou ligado à maquina durante uma semana e quando os médicos se encontravam prontos para desistir, apareceu alguém que deu o sangue para a transfusão necessária.

Quando voltou a si, saído do coma e da letargia de um sonho imaginado real a primeira coisa que viu foi o rosto do anjo da sua tormenta. Madalena dormitava num cadeirão aos pés da cama. Não era humanamente possível acreditar. Mas ela ali estava. Ficou em silêncio a estudar detalhadamente cada linha do seu rosto. A entrada da enfermeira acordou Madalena que sorriu quando sentiu que Ângelo estava acordado.

– Então, seu dorminhoco. Estávamos a ver que a sua aventura acabava aqui.

– Que estás a fazer aqui, como é possível?

– Bem pode agradecer à sua amiga a companhia que lhe tem feito. E a menina não o deixe cansar– arrematou a enfermeira saindo do quarto.

– Que quer isto dizer? – perguntou Ângelo.

 

Madalena foi até ele e depositou um cândido beijo nos seus lábios secos e gretados em forma de saudação e também de resposta.

O espanto de Ângelo quase que fez explodir a maquina dos bip’s, se bem que a dos pip’s se tivesse mantido impassível. Quase podia jurar que sentira algo quando fora ainda agora beijado por um fantasma. Mas não era possível, ele não podia sentir. Ele não tinha sentimentos. Só havia uma forma de comprovar. Suavemente enlaçou Madalena, puxo-a gentilmente até si e no emaranhado de fios e tubos lá consegui encontrar espaço para a beijar como devia ser, apaixonadamente. Mas como podia, ele não sabia como? Estaria ainda em coma e a sonhar?

– Não, meu lindo cavaleiro alado, desasado. Não sonhas.

– Mas como?

– E importa como? Deus escreve direito por linhas tortas. Nós somos dois erros de Deus. E ao contrario do que dizem os entendidos, dois errados podem dar um certo.

– Certo? Errado? Mas porque será que não me importa o que dizes, só me apetece beijar-te?!

– Hum, mas só se prometeres depois ires descansar. Temos muito tempo para falar.

– Madalena?

– Depois Ângelo. Agora quero o meu beijo intenso e apaixonado. Esperámos por ele uma vida.

 

Quinze dias passados Ângelo preparava-se para sair do hospital, recuperado e acompanhado do barbeiro que era, afinal o único que se interessava pela sua recuperação. E que providenciara para que a sua moto voltasse à forma original de funcionamento. Mas foi interrompido pela chegada do médico que tinha acompanhado o seu processo.

– Dr. Lázaro. Veio despedir-se do seu paciente preferido?

– De certa forma, sim, mas também dar-lhe uma última novidade.

– Boa novidade, espero.

– Também espero que a sinta assim. Sabe que ficámos inteirados das suas particularidades de saúde através da sua ficha médica, nomeadamente a questão da raridade sanguínea e especialmente a questão que nos intrigou cientificamente sobre a ausência de sistema nervoso a funcionar.

– Sei do seu interesse e agradeço mas realmente não quero servir para mais experiências cientificas e…

– Espere, não se precipite. Na sequência dos exames de acompanhamento da sua recuperação descobrimos que após receber a transfusão do dador correcto o seu corpo entrou num processo de recuperação que não conseguimos explicar. Esse sangue foi-nos entregue a partir de um banco de sangue particular, exactamente por ser muito raro, pertencia a uma jovem que morreu acidentalmente e que era mantido como prevenção para eventuais acidentes. Com a sua morte deixou de ser preciso e foi “esquecido”, se é que me entende. Quando lançamos o pedido urgente, alguém se lembrou e nos fez chegar esse sangue que o salvou e continua a salvar. Uma tal D.Purcina, conhece? Bem, não interessa. Foi em resultado disso você recuperou de praticamente todas as lesões internas, incluindo o defeito genético.

– Está a brincar, doutor. Como isso é possível?

– Como lhe disse não conseguimos explicar mas tenho que adverti-lo que nos próximos seis meses, se continuar a recuperar da forma que o prevemos, estará perfeitamente curado e a sentir de forma completa, com o sistema nervoso especialmente sensível. Devo assim alerta-lo para levar a vida com cuidado porque vai ter uma avalanche de novas experiências sensoriais que podem afectar toda a sua vida.

– Não tenho palavras. Quer dizer que dentro de seis meses posso sentir tudo integralmente.

– Totalmente em seis meses mas deve ter cuidado porque está já em fase desenvolvida, portanto não estranhe se sentir as coisas diferentemente percepcionadas.

– Posso sentir… ainda não acredito.

– Desejo que tudo lhe corra da melhor forma. E cuidado com as correrias – despediu-se o médico, abandonando o quarto mo momento em que entrava o barbeiro.

– Vamos a isto, moço? Não achas que já chega de boa vida?

– Como é Mestre, de que se fala na vila? – perguntou Ângelo, ainda atordoado com as novidades, tentando sentir se algo de diferente se passava consigo.

– Coisas mirabolantes. Que a velha ensandeceu e pegou fogo à velha igreja que ardeu até ás fundações. Que vedou o acesso à praia da Madalena e já não volta ao jornal faz um mês. Que a apanham a falar sozinha horas a fio e que responde que não a incomodem porque fala com a sobrinha. Vá se lá saber…

Sim?

– E agora que vai fazer moço?

– Pois olhe, mestre, se é como diz todas as minhas coisas arderam coma igreja. Estou como vim ao mundo. Bem, melhor, quero dizer…

– Não se preocupe. As suas coisas estão salvas. Quando soubemos do acidente o xerife recolheu as suas coisas. Elas estão comigo, salvas.

– Pois bem , assim sendo resta-me pegar nelas e fechar um último assunto antes de partir.

– Pois bem, vamos a isso que tenho ainda que voltar para a barbearia.

Vamos lá, então – finalizou, passando o braço pelos ombros do ancião e deixando para trás a incerteza do que fazer com as revelações.

 

Ao separarem-se e na posse dos seus parcos pertences, Ângelo dirigiu-se para a praia da Madalena. Ultrapassadas as vedações, sentou-se e aguardou. Desde o dia em que saíra de coma que nunca mais tinha vista Madalena. Esperava que ela lhe desse esta oportunidade de falarem. O fim do dia voltara ao horizonte e ele ali estava. E onde poderia ele procura-la? De certa forma não se preocupou. Ela tinha aquela capacidade de aparecer onde menos ele esperasse e quando menos esperasse. A confusão que lhe passava pela veias davam-lhe um rugir de sentimentos que não sabia qualificar, mas acima de tudo sentia a calma de saber que tudo seria diferente.

– Estamos muito sonhadores, hoje. A preparar o discurso de despedida?

– Estás aí há muito tempo?

– Desde sempre.

– Porquê eu, Madalena?

– Porque não?

– Era o teu sangue que me deram de transfusão… como posso acreditar em tudo o que se tem passado desde que cheguei aqui?

– E o que te leva a duvidar. Não sentes na tua pele?

– Não brinques, como foi possível? E que historia esta de teres morrido aos 19 anos?

– É verdade.

– Mas estás aqui, e eu sinto-te como nunca.

– Porque estou dentro das tuas veias, talvez.

– Não quero duvidar, apenas quero compreender.

– Mais que compreender tens que aceitar. É o melhor que tens a fazer. E viveres a tua vida sem medos nem restrições. Como devia ter acontecido comigo se não tenho fraquejado nos meus intentos.

– Vamos voltar a ver-nos, Madalena?

– Eu estarei sempre contigo, meu anjo, meu redentor, minha expiação.

– Como é que eu te continuo a ver se tu não existes mais?

– Porque o coração tudo pode. Mesmo quando eu já não estiver aqui eu vou viver na tua memória e não poderia desejar melhor para o resto da minha eternidade. Cumpri o que havia para cumprir e agora vou seguir o meu caminho. Tu também deves seguir o teu e ser feliz.

– Madalena?

– Sim Ângelo, eu sei.

– Meu amor lindo, minha dor profunda, minha lágrima sentida…como vou viver sem ti agora que te posso desejar assim?

– Se forte e não me esqueças.

Ângelo sentiu os lábios doces e quentes de Madalena de encontro o seu rosto, mas não se atreveu a olhar. Não queria quebrar aquele feitiço que o mantinha esperançado. Lentamente apercebeu-se que ela partira. Levantou-se sem conseguir abrir os olhos varridos por uma maré de lágrimas e regressou cegamente ao local onde tinha deixado a moto. Não foi capaz de olhar para trás.

 

Passado um ano o Barbeiro Albano recebeu uma carta do estrangeiro. Era do seu amigo Ângelo que lhe dava noticias. As lágrimas correram pelos olhos do ancião com todas as boas novidades que lhe eram contadas. Mas um pedaço especial da carta ficou ali a bailar diante dos seus olhos, lido repetidamente e que dizia:

 

“Sabe Mestre Albano, quando olho para trás, para a minha pequena vida e para todas as mulheres que tentei amar sem saber como só consigo pensar em tudo aquilo que elas me deram e fizeram por mim e no pouco que eu fiz por elas. Como elas tomaram conta de mim, me acarinharam e como eu paguei nunca retribuindo. O que me restou, realmente? Algum dinheiro no bolso, algumas estórias, uma moto potente que me leva para onde eu quero e de continuar solteiro. Não-comprometido. Livre como um pássaro. Não dependo de ninguém e ninguém depende de mim. A minha vida é minha para viver, mas não tenho descanso de espírito e mente. E se não temos isso então não temos nada. Portanto, qual é a resposta? Isso é o que continuo a perguntar a mim próprio, dia após dia. Afinal para quê isto tudo? Compreende o que eu quero dizer

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Crossroads V [ver estoria completa acima]

Posted by Descamisado on August 24, 2006

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Crossroads [ver estoria completa acima]

Posted by Descamisado on August 3, 2006

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Diálogo com textos [seis e meio]

Posted by Descamisado on July 23, 2006

 

Chora no meu peito, de felicidade, se assim te libertares dos reflexos dourados que te encandeiam, que não te deixam ver outros horizontes.

Liberta pelas lágrimas o teu desejo de união mas não percas a felicidade apenas porque as lágrimas lançam o nevoeiro na tua alma, a dor consumida.

Sabemos que começou por ser apenas um arco-íris, eu sinto, mas não se bastou, não nos bastou.

Embarcámos na aventura da travessia do mar da vida. Da nossa vida, a cada momento mais entrelaçada.

Um caminho pavimentado a cores de fogo e anil, sem meios-tons, sem meios-medos, transformado o cinzento no calor das nossa palavras, de confiança, a força plena na vertiginosa subida aos céus.

Bastou uma palavra tua para que os castelos que construímos no ar se tornassem reais, e mesmo contra ventos e marés, vencemos a distancia.

Fizemos poesia, fazemos ainda, e vivemos nela como o mundo que queremos exista, que existe já na nossa confidência às estrelas, embalados nos nossos sonhos.

Criámos um mundo de musica e cor e decidimos viver nele, um mundo de palavras com significado puro, cristalino, um paraíso onde podemos ser de novo Adão e Eva e repor a verdade do amor platónico onde o pecado não é capital para a nossa existência, porque pudemos viver para além dela sem castigo.

Maior que o mundo que nos acolhe, maior que a realidade do nosso destino, a tua mão esguia a tocar o meu coração como a mais bela melodia extraída das minhas raízes, das raízes que nos suportam nesta descida aos infernos à procura da nossa felicidade perdida, reencontrada.

Como dois Unicórnio, seres adonicos em extinção que se agarram à vida que precisam como do ar que respiram. Que está apenas no desejo de terminar a corrida nos teus braços, encostar a cabeça ao teu peito e deixar que o calor da união nos invada.

Não é uma ilusão, é um sentimento profundo criado em cada silêncio, em cada espaço de pensamento e de acção, em cada toque imaginado, em cada beijo desejado, em cada caricia alcançada, a pele adocicada pelo vento que nos envolve, pelas ondas do mar que nos aquecem porque já não existe mais um lugar de frio existencial.

Porque mudamos a cada momento, também o momento muda a cada instante e cada instante nos completa.

Somos uno, somos agora o arco-íris em nós, somos o espaço e universo, a composição de cada cor passa por nós, o fio existencial pincelado na tela primordial, no puro primal, em ti, perfeita, em mim, adorando.

Quem continua a procurar potes de ouro se tem na sua existência o maior tesouro, o esplendor que supera o brilho e a cor, quem precisa de quimeras se tem o mais fino torque ao alcance de um suspiro, de um sussurro, de uma confidência, ao alcance de um braço náutico, de um abraço miliatico, de um cândido beijo depositado na fronte, mesmo entre dois imensos sois helénicos, abertos de espanto por não saberem de onde vem tanta felicidade, por não pensarem que alguma vez se voltassem a sentir-se completos.

A medo dizes amor, a medo tocas e foges, no desejo de prender em ti o sentimento. O pote de ouro no fim do arco-íris és tu, aprisionada na gaiola dourada onde perdeste o teu canto onírico e nele procuras a confiança que te permita ausentar a magoa e repor a fé em quem apenas quer partilhar as mais belas melodias construídas a dois tons.

Liberta-te de mim e voa ao encontro, apenas pelo prazer de voar em companhia pelas mais belas paisagens da vida.

Porque o principio faz-se no arco-íris que criamos a cada momento para nos embalar dentro do berço do nossa existência.

Porque no principio não era a Luz, eras Tu

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Sou uma pedreira em evolução

Posted by Descamisado on July 21, 2006

Tenho uma amiga que insiste em dizer que o facto de utilizarmos citações de terceiros só prova que não temos inteligencia nem vontade suficiente para escrevermos as nossa próprias verdades. Concedo que pode parecer redutor mas adoro revisitar os conceitos que outros, antes de nós, tiveram vontade de comunicar enquanto cogitavam sobre tudo e nada.

E porque vêm mesmo a preceito com a minha caminhada presente não posso deixar de citar Fernando Pessoa, eterno observador que dizia assim:

“Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…” – Fernando Pessoa
Sem mais!

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MEMORABILIA

Posted by Descamisado on July 19, 2006

É-me dificil aceitar que a minha vida dos últimos meses cabe dentro de um dvd de 700 MB e, pior ainda, que é mais fácil “limpar a memória” do computador que fazer um “delete” dos “bit’s” e “bytes” acumulados na minha própria memoria humana.

Como em tudo, repito de mim para mim, só me arrependo do que não fiz e do que não disse, e voltaria a embarcar de novo nas mesma “aventura” sem pensar duas vezes, porque no fundo a soma dos momentos bons e das boas memorias acaba por ser positiva e neste momento só me interessam as coisas e as pessoas positivas. Hummmm…

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Diálogo com textos [cinco e meio]

Posted by Descamisado on July 17, 2006

… 

Adoro alimentar os teus sonhos,   escolher cada ilusão,   fazer dela a nossa cabana numa praia deserta,

onde o arco-íris assenta sobre a areia dourada, a ilusão do pote de ouro sobre o resplandecer do sol, escorrendo na ampulheta do tempo e qual poalha reluzente, esfumada, dedilhando os teus cabelos sedosos. Onde escrevo odes infindas, ah musa vervene!

Sei como adoro ver o teu corpo tomar tons de céu, seguir cada linha epidérmica, passo a passo, gota a gota, a contra-relógio, a contar quilómetros, a ganhar odores de seda na tua pele, a sede a crescer, eu a glorificar os teus olhos, tu a colorir o arco-iris e ele a reverenciar-te como o seu Sol criador.

Sei que sonhas. Sei que sonhas ilusões. Sei que golpeias o estratosférico celestial e em cada estrela cintilante penduras desejos mil. Escutas e projectas para além do arco-iris, somewhere, a tua voz, a tua musicalidade, que importa? A quem importa, senão a ti. A mim… porque eu sou “tu” e tu és “eu“. Eu já não sou eu… Eu já não sou eu… Eu já não sou eu…

Eu já não sou eu…repito-me, embalado no teu olhar de águas cristalinas, que promete mergulhos de alma e coração.

As mãos de semblante marmóreo, esventradas por sangue azul,  real, ele carregando as veias perenes de vida, golfejando em marés ritmadas com o ondular do teu corpo, avançando a espaços milimetricos por  cada ruga do meu corpo, agastado pela espera de Caronte, que se recusa a separar-nos.

Pintamos as mais belas paisagens, rebolando, corpos desnudados envolvidos apenas no carinho que emanas, aurífero, quimérico, alquímico. O meu Saint Graal, a minha demanda para além dos sete sois, para além da tela que se recorta nas fraldas da Lua e onde, enrolados em nós, enlouquecidos no inebriante plasma primordial pintamos a dois as mais belas obras inacabadas e porque as repetimos até à exaustão, desfraldando aos quatro ventos, aos sete mares, aos doze planetas, ao Universo que nos submerge até nos perdemos na poeira dos tempos.

Sem passado, nem presente nem futuro porque estamos num continum abraço intemporal, espraiados a perder de vista nas encostas do mapa colorido dos astros, eliminando o cinzento porque lhe adicionamos tons de sublime.

E quando pouso o pincel que me ofereceste, miro e remiro o quadro que ele me pintou por ti e dou por mim a sair de um sonho espectral, envolvido no calor colorido das tuas palavras, bebidas com sofreguidão, no temor que o fio nacarado que escorre o néctar se esgote em mais um desejo não satisfeito

Por onde andas que me faltas ao abraço, por onde andas que me esvazio de tudo para criar o espaço de te pintar como a mais bela das paisagens imortais?

Sem meios-tons.

Sem lei nem gray.

Nesta cruel ilusão que me atormenta os sonhos, que não me apazigua o calor da tua ausência.

Que começou por ser um arco-íris…

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Alegorias da minha vida

Posted by Descamisado on July 17, 2006

Por vezes são preciso pessoas livres de preconceitos para nos darem uma visão descomplexada de como a vida pode ser o que nós dela fizermos. Obrigada Anne-May, não sabes quanto importante foi para mim.

 

Reconheço que tenho andado perdido nos últimos tempos. Demasiadas coisas a contracorrente, demasiadas e ao sabor das emoções onde apenas deveria haver sentimentos, profundos ou simples.

Tento simplificar mas as coisa parecem ter tendência última de se complicarem ao sabor dos dias que passam e das decisões de terceiros, que julgo de boa fé, mas que não deixam de interferir com o meu centro emocional. Reconheço-me a ficar sem recursos de lidar com as coisas e com as pessoas dentro de um espírito de compaixão e de compreensão que tenho como certo ser o caminho. O meu caminho. Que não será solitário se puder ser essa a opção. Porque solitário não necessita de ser “sozinho”. Que tenho de continuar a aprender, é e será sempre o meu desejo. Da melhor e da pior forma, será sempre aprendizagem se fizer de mim melhor pessoa. Se me ensinar que se tiver que mudar radicalmente e for possível de fazer apenas porque me motivo a isso nunca será demais pensar o porque estou aqui ou porque continuo a procurar sintonia com o meu destino.

 

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Diálogo com textos [quatro e meio]

Posted by Descamisado on July 8, 2006

Eu sei sempre do que vais falar quando os teus olhos se iluminam e o teu rosto se abre num sorriso.

E sei sempre porque os teus dedos não me acariciam quando o desejas, porque sinto a mesma vertigem quando retraio o meu toque a medo de te fazer fugir, traindo as nossas intenções, pondo a nu o que não queremos acreditar que continua lá, aí, aqui dentro.

Não me perguntes porque sei, acredita que te sinto antes de te ver ou ouvir, como um fluxo de calor e emoções que antecipa a tua palavra. Exactamente como quando te calas dás lugar a um silêncio cúmplice e contemplativo. Extraordinário como até num silencio assim pode haver um diálogo intenso.

– “Desculpa se me recolhi ao silêncio. Precisava de interiorizar, de me ausentar de mim para melhor entender sem me deixar emocionar. Porque frequentemente negamos os sentimentos que estão na origem. Não são as emoções que me fazem dialogar contigo, são sentimentos primordiais a base de toda a minha atenção.

Eu sei que gostas de falar do Sol. E gostas de calar as emoções quando elas escurecem o teu sol, porque escondem sentimentos demasiado reveladores para que os possa expor, assim, a nu como a tua alma, que não queres exposta. Nem o coração, que o pode tornar de novo vulnerável e venerável.

Sei que gostas de tomar o sol por teu aliado para que te cubra o cabelo de raios dourados e resguarde ao mesmo tempo os teus medos em cores do arco-íris que te lembrem a luz e não a escuridão.

Pois eu digo-te, olhos nos olhos, como sempre o fiz, mesmo quando sentia a tua dor inundar as tuas pupilas profundas num mar salgado de lágrimas, o mesmo mar salgado que herculeamente me pedes que volte atravessar, sem olhar ao passado.

Digo-te que não falo de passado por saudosismo, mas porque o sinto pesado, a criar rios intransponíveis feitos de incertezas, que outrora foram pequenas nascentes de esperança em que deixámos de acreditar. De alimentar, de engrossar a corrente, tocados pela força das marés e perdidos nos equívocos, desaguados quando o rio se fez mar. Salgado de lágrimas nossas.

Eu, da noite.

Tu, do dia.

Condenados a não nos voltarmos a juntar senão naqueles breves momentos em que a noite dá lugar ao dia ou naqueloutro em que o dia dá lugar à noite.

Procura-me para te dar certezas, não vejas no meu semblante outra coisa senão certezas. Certezas que não subestimam os erros cometidos ou aceites. Erros que só existem se não forem aprendidos, porque deles vêm a experiência que nos toca.

Porque não tenho receio que a saudade nos invada, a nossa força vem das nossas fraquezas emocionais, do nosso querer tanto ver novas auroras, assistir ao nascer de cada novo dia do cimo da nossa compreensão pela infalibilidade da vida, do amor pelo universo que nos contagia e nos permite trocar felicidades.

Na saudade não podemos viver um pelo outro, na saudade temos que encontrar forma de viver cada um o seu caminho e tentar que ele se cruze sempre, que o nosso espaço exista em liberdade gerada pela confiança de quem somos, individualmente e em relação um ao outro e ao mundo do qual não dependemos, nem mesmo de nós.

– “Se eu te estender a mão neste momento, vais recusar? Irás recusar, mais uma vez? Vamos permitir que passe mais um dia em que não contemplamos o futuro risonho de mão na mão, sem nada mais exigir, apenas porque é nosso desejo, ou não o faremos, porque é cedo demais ou porque é tarde de mais, ou por qualquer outra razão inventada pelo preceito e pelo medo?”

Sei que me falas de gelo, de ausência, de vazio, de solidão, de equilíbrio, de esperanças, de busca, de reciprocidade, de passado de presente de futuro, de dor de espanto de surpresa, de inconsciência, de amortalhar, de esperar, de frio de fascínio de alma, de estrelas de lagrimas, de magoa de saudade, de mar de praias de emoções, de nostalgia e de tanto mais … falas-me de tantas coisas mas só existe uma que quero sempre ouvir: “(…)que tudo vale a pena(…)”. Só isso.

Agora descansa que a noite e o dia são longos, quentes e eternos. Felizmente temos imenso gin e caju.

O resto deixemos fluir na palavra. E se puseres a musica um tudo nada mais alto pode ser que deixemos de ouvir as nossas almas a bater a compasso demasiado forte pela nossa proximidade crescente.

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